Themis, Agos e Nemesis: a justiça dos deuses (2/3)
Cultuar divindades ctônicas atrai miasma – Parte II
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As divindades helênicas eram grandes norteadoras da conduta e do comportamento social dos gregos. Embora não fosse incentivado que estes tentassem ser e agir como os deuses e deusas, eles representavam tudo o que, de alguma maneira, organizava e dava estrutura ao mundo deles. Desde os tempos antigos, suas reações para com os mortais foram canalizadas por poetas, tendo essas canalizações sofrido influências das próprias demandas sociais e políticas daquele tempo.
Hoje, aqueles que decidem trilhar o caminho do paganismo em honra aos deuses gregos esbarram em suas leis ainda em funcionamento; os deuses e deusas estão vivos, e a estrutura que constitui seu universo e ordem divina também. Sendo assim, por mais que estes tenham sido popularizados de maneiras muito descontraídas, eles, enquanto família espiritual, possuem seus códigos — ou seja, preceitos que dão ordem e mantêm o funcionamento da dinâmica relacional entre humanos e divindades. Esta é a lei divina representada na essência da deusa Têmis, filha de Gaia (Terra) e do Céu. Ou seja: a própria terra dá à luz a sua força de estabilidade organizacional — uma força mediadora da relação entre divindades e mortais.
Após desposou Têmis luzente que gerou as Horas, Eqüidade, Justiça e a Paz viçosa, que cuidam dos campos dos perecíveis mortais – Teogonia de Hesíodo – Os deuses olímpios.
Sendo assim, a lei divina e organizacional do planeta Terra (Têmis) dá origem a princípios da ordem no caos do nosso mundo. Esse fator importa pois, crendo nós que os nossos deuses estão vivos, Têmis continua sua tarefa; sendo assim, a ordem divina dos deuses resiste ao tempo e com ele se movimenta para superar a morte do paganismo helênico. Isso nos faz pensar que as leis divinas não pararam no tempo, mas o acompanham ao longo de gerações, seguindo na onda do caos e da ordem dos nossos tempos atuais, para que, assim, as divindades possam continuar a fazer-se presentes em nossa realidade.
Uma lei que não muda ao longo do tempo é uma lei morta; e se as divindades gregas são como sempre foram — envolvidas e influenciadoras diretas dos mortais — então devemos nós transpor a limitada concepção de que estes são deuses de pedra imutáveis, para nos abrirmos para o assombroso espetáculo que é perceber que os deuses ainda jogam com a vida humana. Sua ordem em meio ao caos está aqui, e sempre estará enquanto houver Gaia (Terra).
Quando nós, enquanto pagãos, corrompemos Têmis (a ordem natural), estamos suscetíveis a agos, a ira divina. Isso significa a violação de princípios que podem causar-nos desgraça ou, antes de tudo, desrespeitar a nós mesmos, afetando também as pessoas ao nosso entorno. Enquanto o agos surge de transgressões que poderiam ou podem ser evitadas, o miasma emana naturalmente a partir das diversas situações às quais somos condicionados por existir.
“Um cadáver, por exemplo, difunde miasma, mas o Agos só é criado se um sobrevivente lhe negar o direito divinamente sancionado ao sepultamento. Para criar agos, a ofensa deve provavelmente ser dirigida contra os deuses ou suas regras” – Robert Parker (1996)
Entre agos e Têmis, há uma força que orbita, fúnebre e travessa, regulando nossas ações e trazendo consequências que podem culminar na morte do nosso espírito. Némesis é como a mão que chega de repente puxando o fio das Moiras, gerando o escorregão, a fatalidade e a consequência a partir dos nossos desequilíbrios. Ninguém sabe de onde ela vem e onde ela vai puxar, para a sorte ou para o azar. Ela é uma força de equilíbrio que estabelece uma resposta a fim de manter o reinado de Têmis (ordem divina) de pé. Némesis não se resume a bondade ou maldade; ela é o ponto de equilíbrio entre a ordem e a resposta raivosa dos deuses contra nossas bestialidades autodestrutivas. Mas onde entra o miasma no meio disso tudo?
“O miasma, para os deuses parece irrelevante; é uma sujeira perigosa que as pessoas passam umas para as outras como uma mancha física. Agos, por outro lado, tem sua origem em um sacrilégio-aja, e o enages, como sugere o genitivo anexo, está nas garras de um poder vingativo; a razão para evitá-lo não é a lágrima da contaminação, mas escapar de ser engolido pelo castigo divino que o espera”. – Robert Parker (1996)
Isso significa que estamos fadados à contaminação e a contaminar enquanto seres humanos; mas o que realmente mata o nosso espírito e provoca a ira dos deuses é fugir, dissimular ou tentar enganar o resultado das nossas próprias atitudes — evitar sofrer as consequências a partir das nossas ações. Fugir do fato de encarar nossa própria toxicidade e tentar maquiar isso projetando nossas angústias e dores nos outros.
Isso seria como desrespeitar as movimentações que Némesis provoca na teia das nossas vidas a partir das nossas escolhas e comportamentos. Isso seria dissimular uma falsa realidade onde somos perfeitos e, assim, ignorar a nossa tendência à sujidade e, portanto, ignorar as investidas que os deuses e deusas colocam no nosso caminho para que possamos nos desenvolver como seres humanos. É ignorar a ordem divina helênica “Tudo emana do caos” e corromper a naturalidade de Têmis: “Ordem em meio ao caos”.
Mas e as divindades ctônicas?
Não existem documentos antigos que comprovem algum tipo de contaminação exclusiva por miasma ao adentrar em templos de Perséfone, Hades, Hécate ou outras divindades ctônicas. A purificação era exigida ao adentrar no santuário de qualquer divindade, e os ctônicos não foram impedidos de serem reverenciados por qualquer ideia de contaminação por miasma, já que todos se tratam de energias divinas e o miasma, como vimos, emana da nossa inter-relação uns com os outros enquanto mortais.
Os sacerdotes e sacerdotisas ligados a ritos fúnebres tinham a consciência das devidas limpezas antes e depois dos seus rituais; a purificação servia como norma para acessar o divino em todas as esferas, sendo este um dos motivos por que muitos santuários e templos eram construídos próximos a nascentes e rios. Em uma das mais importantes passagens necromânticas da mitologia grega, podemos vislumbrar Ulisses realizando um complexo rito de necromancia a fim de contatar o espírito do adivinho Tirésias. Ulisses segue as recomendações de Circe e parte para o bosque de Perséfone, onde sacrifica animais em uma cova e tem, assim, o privilégio de contatar os mortos. Fato curioso é que, logo após seu ritual de necromancia, suas palavras são:
Sem tardar, voltei para a nau e ordenei aos companheiros que embarcassem e soltassem as amarras. Ato contínuo, eles saltaram para bordo e tomaram lugar nos bancos dos remadores. A corrente nos levava pelo rio Oceano, e a nau se afastou, primeiro com ajuda dos remos, e depois ao sabor da brisa favorável. – Odisseia (Canto Xl)

Ulisses evoca o fantasma do adivinho Tirésias em um ritual de necromancia.
Não há, em seguida, qualquer punição ou fúria divina por miasma, ou a ideia de que Ulisses, ao contatar os mortos, tornou-se inapto para o convívio. Esta é apenas uma das tantas cenas ligadas à necromancia que reforçam a ideia de que não havia purificações diferentes daquelas que deveriam ser feitas cotidianamente — tanto que muitas dessas ações não são mostradas nas passagens mitológicas. Entende-se “limpar o miasma” como uma conduta rotineira e completamente natural.
Uma das principais justificativas que adeptos do culto a divindades helênicas usam para amedrontar as pessoas é a de que as divindades do submundo produzem miasma na vida daqueles que as cultuam e, com isso, trazem a morte e doenças para dentro das nossas casas. Não há justificativa plausível e comprobatória para isso senão o medo da morte — algo comum e natural da existência humana, exceto quando esse temor extrapola a linha do raciocínio lógico e nos impede de reverenciar divindades ligadas ao submundo, porém não nos impede de comer uma carne há muito tempo morta e conservada em nossa geladeira.
As aminas putrescina e cadaverina continuam presentes na carne, também em nossa vida e até mesmo em nosso corpo. Ignorar a presença da morte e considerá-la como um fator com o qual podemos escolher ter contato ou não é uma forma de se manter em constante poluição. Ignorante e alheio, pensando que realmente se tem o poder de separar a vida da morte. Não há como. Fingir para si mesmo que isso é possível é manter-se contaminado com ignorância e falta de noção sobre a própria existência. Alegações de que cultuar as divindades do submundo atrai miasma partem de um discurso mais moderno do que ancestral; e acredito que, agora que adentramos um pouco no miasma à moda grega, podemos conhecer mais sobre as influências que esse conceito sofreu ao longo do tempo e como isso altera ou incorpora novas crenças sobre miasma entre adeptos do culto a divindades helênicas.
A teoria miasmática
É muito comum ouvir em filmes que revivem o século XIX a frase “recomendo um bom ar” em caso de qualquer doença. Naquela época, muitas pessoas se deslocavam de suas residências urbanizadas para ficarem em zonas afastadas da cidade, a fim de respirarem um ar fresco. A teoria miasmática foi a principal motivadora desse tratamento médico. Em 1349, o médico hispano-árabe Ibn Khatimah publicou um tratado onde afirmava que a causa direta de toda doença era o ar que as pessoas inalavam. Essa ideia foi radicalizada por ele, já que o médico grego Hipócrates (460-377 a.E.C.) já havia afirmado que o ar era um dos principais agentes causadores de doenças.
Um ponto importante é que Hipócrates descartou qualquer hipótese de doenças causadas pelo ar a partir de eventos espirituais; portanto, não entendia que o ar contaminado provinha de um miarós emanado por condutas religiosas inadequadas das pessoas. No século XIX, temos o conceito de miasma intimamente ligado a doenças contagiosas. A ideia que se espalhou de forma muito mais intensa após a peste bubônica era de que vapores e cheiros pútridos emanados de corpos em decomposição, mofo, excrementos de valas e vísceras adoeciam as pessoas. Não que isso não fosse possível, porém esse era o tipo de diagnóstico para qualquer doença.
É nessa época de manifestação de diversas doenças causadas por uma urbanização caótica e desordenada que a morte e aspectos ligados ao mundo dos mortos passaram a ser diretamente associados à doença e ao miasma. Embora na Grécia Antiga se entendesse que tocar um cadáver e adentrar a casa dos parentes era um fator que gerava miasma, as descrições e levantamentos médicos do século XIX demonstram um cenário bem diferente e desesperador, o que resultou, inclusive, em reformas sanitárias. Nesta época, a morte exalava em toda a cidade; muitos cadáveres eram enterrados em covas rasas e o líquido dos seus corpos acabava indo parar em esgotos a céu aberto. Enquanto os gregos incentivavam enterros para além dos muros da cidade, em tempos vitorianos a morte abocanhava a vida e tomava quase toda a realidade com miséria, doenças e pestilências, em uma linha indivisível entre a cidade e o cemitério — muitos deles, inclusive, eram praças centrais e locais fétidos de encontros públicos. Seria quase impossível não associar as doenças à própria morte. Ainda no século XIX, a teoria miasmática se enfraqueceu e foi deixada de lado para dar espaço à teoria dos germes.
Embora no século XIX a teoria miasmática tenha tido sua notoriedade, a ideia do ar contaminado por miasma estava presente na medicina desde muito antes. Figura popular da era medieval era o “doutor da praga” — médico, geralmente estagiário, que utilizava uma máscara com bico acentuado a fim de manter seu nariz distante dos pacientes e proteger-se do ar contaminado.
O miasma no espiritismo
O espiritismo possui grande influência em fenômenos sobrenaturais do século XIX, uma época muito fértil para o ocultismo; nesse período, as sessões espíritas foram popularizadas por um grande interesse dos vivos em contatar os mortos. Foi dessa maneira que, somando teorias sanitaristas ao puritanismo cristão, formulou-se o conceito de miasma dentro do espiritismo, onde podemos ver uma apropriação de um conceito originalmente helênico.
A palavra aqui adquire um caráter de deturpação, já que é abordada com características religiosas, possuindo, no entanto, em seu significado, uma série de crenças cristãs. Dessa forma, o espiritismo vê o miasma como uma emanação de “energia negativa” orientada a partir de pensamentos bons e maus — algo que se difere e alcança nuances muito semelhantes ao puritanismo pregado pelo cristianismo.
O “miasma deletério”, como é comumente chamado, é a energia ruim ou poluída altamente destrutiva, capaz de causar enorme dano à saúde não só espiritual, como também física. Ele é um fator desmoralizante e corruptível à alma. Alguns textos podem sugerir uma percepção de miasma muito semelhante à maneira como os gregos viam; no entanto, essa é a característica fundamental da apropriação cristã: perverter a origem das coisas e sua aplicação, mantendo, porém, uma característica semelhante ao que foi um dia. É por isso que precisamos nos atentar para não estarmos transformando a cautela em um tipo de terror e medo do pecado, medo da punição de Deus ou medo de estar sendo corrompido pelo diabo.
Conscientizar-se de uma apropriação do termo helênico nos faz redobrar a nossa atenção sobre o tema “miasma” e, com isso, retomar a percepção sobre miarós de uma forma mais saudável e condizente com a ordem dos deuses aos quais cultuamos. É a partir disso que podemos pensar em ações que buscam nos colocar em estado de Katharmos (pureza), o que em nada se compara ao puritanismo.
Orestes sendo purificado com sangue de um leitão. Atribuído ao pintor Eumênides 380 – 370 a.C.
LEIA A PARTE III DESSE ARTIGO – KATHARMOS E A PURIFICAÇÃO PARA A BRUXA CTÔNICA
Referências:
PARKER, Robert. Miasma: Pollution and Purification in Early GreekReligion
ECKERT, Maureen. Euthyphro and the Logic of Miasma
KANNADAN. Ajesh. History of the Miasma Theory of Disease
KIOSI. Evaggelia . Τhe Ancient Greek Ἄγος (Agos) and the Warrior Ethos
HESIODO. Teogonia
Odisseia. Homero
Glossary Of Miasma and Purification in ancient greek religion – Hellenic Gods

