Cultuar divindades do submundo atrai miasma? (1/3)
O miasma é um dos temas mais polêmicos dentro da esfera de culto aos deuses helênicos, sobretudo os ctônicos. Enquanto as recomendações sobre miasma são transmitidas com tranquilidade no que diz respeito à conexão com divindades olimpianas, quando se fala de divindades do submundo, a coisa fica um pouco “mais embaixo”, pois algumas crenças — mais modernas do que, de fato, ancestrais — são disseminadas como verdades genuinamente helênicas.
O miasma “atual” tem adquirido uma característica separatista e preconceituosa em relação às divindades ligadas aos mortos, isolando-as e relegando-as a um lugar de assombro e sujeira, servindo como desculpa para distanciar as pessoas da consciência a respeito da morte. Mas como será que os antigos gregos percebiam o miasma nessa direta ligação com os ctônicos? Será que realmente havia algum tipo de castigo ou perigo severo para aqueles que se colocavam em estado de conexão com Hades, Perséfone, Hekate ou qualquer outra divindade ligada ao submundo? E, afinal de contas, o que é o tal miasma?
Desconstruindo Influências Modernas
Essas são algumas das perguntas que assombram os adeptos da bruxaria ctônica que realmente desejam adentrar com responsabilidade espiritual e ancestral nesse universo obscuro. Para responder a essas perguntas, precisamos entender que, atualmente, o que se conhece popularmente como miasma dentro da espiritualidade é uma mescla de crenças e preceitos oriundos do helenismo, do espiritismo e do cristianismo.
Muitas pessoas adeptas de crenças helênicas reafirmam não estarem falando de pecado quando falam de miasma, mas, em poucas palavras, é possível notar suas mentes contaminadas com um puritanismo excludente e catequizado. Aproximam-se mais dos cristãos do que do helenismo. Por isso, para adentrarmos nesse assunto, precisamos entender que algumas crenças acerca do miasma (que também trataremos aqui) se atravessam e “contaminam” práticas ditas como oriundas originalmente da Grécia.
Ao longo deste artigo, você irá se deparar com algumas palavras que perderam seu sentido original por influência do cristianismo, e isso poderá afetar seu pensamento sobre o que estarei a dizer; portanto, tente focar na origem do que eu estou expondo e entender que, para mudarmos essa influência, é preciso compreender de onde estes conceitos vieram para chegar até nós da maneira como chegam. E eles vieram do paganismo. Por isso, faça esse caminho da raiz comigo, sabendo que, antes de terem sido popularizados pelo cristianismo, a ideia de limpeza, pureza e castigo era abordada sob uma outra perspectiva.
O miasma para os antigos gregos
A palavra miasma é de origem grega, derivada de miarós (mancha/sujeira); sendo assim, o conceito de “miasma” surgiu na Grécia Antiga, o que não significa que somente os helênicos possuíam crenças acerca da sujidade e pureza. Em diversos materiais etnográficos de outras culturas, é possível notar a presença de crenças e tratativas ligadas à poluição emanada da mortalidade.
Na Grécia Antiga, o miasma era a poluição que comprometia a integridade de alguém, sendo uma mancha não necessariamente física que culminava na contaminação de toda a comunidade por ações corruptivas. Logo, o miasma possuía uma característica viral. Isso significa que as ações isoladas de um indivíduo poderiam afetar todo seu entorno, como algum tipo de praga que começou com uma pequena resposta à infâmia de alguém.
O miasma em si não é a causa da praga, mas o resultado gerado por comportamentos e exposição a agentes e situações que provocam essa mancha na conduta e alma do indivíduo.
Se tentássemos incluir todos os comportamentos “repugnantes”, a poluição tornar-se-ia uma categoria alarmante e talvez de abrangência vazia, uma vez que não parece que, em termos gregos, a repulsa se apegue apenas a um conjunto restrito de desvios; qualquer ato ultrajante torna seu perpetrador, visto sob uma certa luz, miarós. – Robert Parker (1996)
O miasma, na perspectiva helênica, trata-se, então, de uma contaminação que os mortais causam entre si, uns com os outros, uma vez que é impossível que todos os seres humanos de uma sociedade estejam imunes de cometer qualquer desrespeito que culmine no miasma. E, se a mancha de um contamina os demais, então estamos fadados, enquanto sociedade, a um estado de impureza. Logo, podemos entender o miasma, em uma percepção helênica, como uma “poluição” inevitável emanada pela própria convivência e mortalidade.
“Pessoas inocentes poderiam ser afetadas pelo miasma, pessoas que não eram responsáveis por um crime nem culpadas de qualquer associação criminosa ou moral…” – Maureen Eckert
A partir disso, podemos perceber que, para os antigos gregos, infringir crenças religiosas, normas políticas e sociais representava entrar em estado de miarós, o que fez com que a ideia de poluição e contaminação de conduta se tornasse uma ferramenta de organização social a partir da cautela ou medo, já que estar em miarós poderia comprometer não só o contaminado, mas todas as pessoas que estavam à sua volta.
E, a partir dessa ideia de contaminação pessoal, a purificação tornou-se um sistema social que representava a eliminação do miasma para que os indivíduos pudessem estar na presença das divindades. O miasma estava diretamente relacionado à purificação que era necessária ser feita antes da entrada em santuários; ele representava o estado de sujeira antes das devidas práticas com os deuses. Por isso, simples ações cotidianas, como não tomar banho ou estar com as mãos sujas antes de entrar em um templo, eram consideradas miasma.
O miasma poderia ser gerado a partir de duas principais fontes:
Causas naturais
Eventos desestabilizadores do curso e vida cotidiana, que expõem as pessoas ao incerto que paira entre a vida e a morte. Essa é uma das razões do porquê o parto e a morte eram considerados eventos miasmáticos. São situações que desafiam a normalidade do dia a dia, trazendo consigo o luto, tensões, medo, desespero, dor e emoções incomuns. Nesses eventos, o miasma representava mais estar ferido/poluído com o sentimento do luto ou do ocorrido do que, de fato, adquirir doenças. Para eles, não eram necessariamente os fluidos do parto, menstruação ou morte que geravam o miasma, mas a própria situação que desestabilizava o curso das suas vidas.
Causas não naturais
Essa categoria abarca assassinatos de todas as formas, crimes hediondos que feriam a integridade de alguém. Muitas situações ligadas à produção de miasma não natural foram documentadas em tragédias, algumas das mais populares: Édipo Rei, de Sófocles, e Oresteia, de Ésquilo. Não faltam exemplos na mitologia de assassinatos que acabaram comprometendo povos e famílias inteiras pela vil ação de um único indivíduo.
Um debate nos traz um exemplo de como o miasma ainda hoje deve ser um assunto aberto a conversas que transpõem a moral estabelecida pelos próprios gregos antigos. Em um dos primeiros diálogos de Platão, Eutífron, ele nos apresenta a situação de um espertalhão religioso que, dialogando com Sócrates, afirma ter denunciado seu próprio pai por compactuar com a morte de um escravizado. Segundo ele, em um acesso de raiva, o diarista da família cortou a garganta de um escravo, e o pai dele amarrou as pernas e mãos do mesmo, jogando-o em uma vala (ainda vivo).
Eutífron é questionado por Sócrates, sobretudo por denunciar o próprio pai, o que era considerado um ato completamente desrespeitoso e vergonhoso. As crianças eram incentivadas desde muito cedo a jamais denunciar o pai, e a família crescia sabendo que o pai não deveria ser entregue à justiça pela própria família por seus crimes, pois isso representava a desonra e a ruína da família. Eutífron, para defender seus argumentos, se vale da ideia de miasma, dizendo:
É muito engraçado, Sócrates, que você, entre todas as pessoas, pense que faz diferença se a vítima é um estranho ou parente, e não tenha em mente uma coisa, se o assassino agiu com justiça. Se ele agiu com justiça, deixe-o ir, mas se não, deve-se processá-lo, especialmente se ele compartilhar o seu lar e comer na mesma mesa que você. A poluição é a mesma se, estando consciente do que é certo, você faz companhia a tal homem e não purifica a si mesmo e a ele da poluição, levando-o à justiça. (4e)
Sócrates questiona a veracidade das palavras do denunciador, é possível notar que para ele choca a impetuosidade de Eutífron em denunciar o próprio pai:
Com Zeus como testemunha, Eutífron, você acredita que entende o que a religião defende e o que é piedoso e ímpio com tanta precisão que, na medida em que essas coisas que você diz aconteceram, você não tem medo de possivelmente fazer algo ímpio ao trazer seu pai para julgamento? (4e)
Eutífron se justifica nesse diálogo a partir do miasma que ele e a família podem adquirir com as atitudes do pai, visto que ele era o responsável pela vida do escravizado. Esta é apenas uma das situações onde podemos perceber o quanto, para os gregos, o miasma não os isentava de acobertarem atos extremamente violentos e desrespeitosos à vida, valendo-se de outros códigos que regulavam sua conduta patriarcal.
Sendo assim, o miasma ainda hoje exige de nós reflexão e autoanálise, para perceber o que é ou não cabível dentro da ideia de sujidade. O que quero dizer com isso é que não podemos simplesmente transferir códigos morais do período arcaico e clássico da Grécia Antiga sem questionar como esses códigos se adaptam à nossa realidade hoje. Pois, sem dúvida, muitos de nós consideraríamos hoje que não só ter um escravo, como jogá-lo vivo em uma vala quando ele precisaria de socorro, seria motivo mais do que suficiente para contaminação e miasma.
Infelizmente, muitas pessoas têm o fetiche de alterar e radicalizar códigos do passado helênico, afirmando que tais códigos são clássicos e antigos, quando tanto nesse quanto em vários outros diálogos filosóficos vemos que os helênicos já naquela época questionavam a ordem e a lei, dialogavam sobre estes códigos e mostravam que, assim como hoje, a sociedade é cheia de camadas e conflitos que podem ser percebidos de diferentes ângulos por diferentes pessoas.
Sendo assim, qualquer código e conduta social, independente da época, precisa passar por uma revisão a partir da nossa realidade, até mesmo para que estes códigos antigos não terminem por quebrar regras de ordem social do nosso próprio mundo moderno. No caso do miasma na Grécia Antiga, temos um código que mescla duas questões principais:
Esfera criminal:
A contaminação e questão do miasma era levantada para defesa e exposição de problemas sociais que aconteciam entre os indivíduos.
Esfera espiritual:
Quase sempre o miasma está associado à proibição da entrada em templos, dificuldades na comunicação divina ou o receio de pedir favores do deuses.
Este segundo com maior notoriedade, já que a maioria dos escritos que narram a sujidade e contaminação da alma está diretamente ligada à relação dos indivíduos com os deuses. Na esfera espiritual, podemos ver exemplos de recomendações para os indivíduos, mas, por se tratar de uma representação simbólica e não necessariamente literal da contaminação, o miasma desde sempre exigiu autoanálise e reflexão. A disseminação da cultura de limpeza e purificação foi uma forma de gerar uma consciência coletiva e natural entre os gregos sobre como e com o que eles precisariam se preocupar antes de pisar em um templo e estar diante dos deuses em cerimônias.
É dessa maneira que ainda hoje precisamos pensar o miasma a partir da autorreflexão e do processo de autoconhecimento. Podemos reproduzir purificações dos helênicos a fim de criar uma conexão ancestral com suas práticas, mas isso não substitui e nem evita a miarós das nossas próprias atitudes. E nossas atitudes são atuais e tangíveis; portanto, podemos ver o miasma como um código pessoal de autoanálise de comportamentos autodestrutivos que contaminam a nossa própria existência e se reproduzem no cotidiano, contaminando também todos à nossa volta.
Sabendo da característica viral com que os gregos percebiam o miasma, podemos traçar um paralelo realmente interessante com comportamentos tóxicos que temos, atitudes inconsequentes que transgridem nossos próprios limites e os do outro. O miasma pode ser percebido como pulsões violentas, desagradáveis e pouco trabalhadas da nossa psique, que irrompem do nosso inconsciente prejudicando a nossa convivência com os outros e com a nossa própria natureza.
Em nossas jornadas como bruxas ctônicas, ele pode servir como um sinalizador de que nossa alma tem sido corrompida com uma toxicidade que acabará nos afastando das divindades. Não dá para levarmos algo tão sério para os gregos antigos apenas como uma listinha do que fazer ou não fazer. Eles não tinham uma cartilha específica sobre miasma; pelo contrário, disseminavam e incentivavam a purificação, a consciência e a importância da autorreflexão, gerando debates filosóficos que culminavam em um estado de consciência espiritual diante dos deuses e deusas. Dessa forma, pensar nos ajuda a compreender, identificar e conter o miasma. Por isso, podemos fazer algumas perguntas astutas para que nós mesmos possamos ter consciência do que contamina a nossa conduta como seres humanos:
- Quais são as atitudes mais tóxicas que eu costumo ter comigo mesmo?
- Quais tipos de comportamentos tem prejudicado a minha relação com as pessoas e com o meu entorno? Eu tenho algum vício ou compulsão que me deixa triste, angustiado, que me faz acabar descontando nas pessoas ou em mim?
- Eu consigo identificar grandes miarós (manchas) que a sociedade tem reproduzido? Quais são esses comportamentos coletivos que destroem a vida das pessoas? Como posso evitar agir assim com os outros? (Problemas sociais coletivos podem ser identificados como grandes manchas de uma comunidade).
Sentimentos como raiva, rancor, inveja, ciúme e tantos outros fazem parte da nossa dinâmica relacional e existência como seres humanos; para nós, mortais, eles são miasmáticos e não temos como acabar totalmente com isso sem nos rendermos à falsa ilusão da perfeição. É por isso que o miasma não é uma força a qual nós, seres humanos, somos capazes de dissipar totalmente.
É parte daquilo que somos; são resquícios da mortalidade em coletivo. Às vezes, você não tem nutrido isso, mas é invadido, de repente e sem aviso, por forças miasmáticas. Nossa responsabilidade espiritual como devotos é equilibrar, inibir e evitar o próximo passo, o que acaba culminando na contaminação total da nossa existência e gerando Agos.
LEIA A PARTE II DESSE ARTIGO – THEMIS, AGOS E NEMESIS
Referências:
PARKER, Robert. Miasma: Pollution and Purification in Early GreekReligion
ECKERT, Maureen. Euthyphro and the Logic of Miasma
KANNADAN. Ajesh. History of the Miasma Theory of Disease
KIOSI. Evaggelia . Τhe Ancient Greek Ἄγος (Agos) and the Warrior Ethos
HESIODO. Teogonia
Odisseia. Homero
Glossary Of Miasma and Purification in ancient greek religion – Hellenic Gods