Quando o fim do inverno se aproximava e as flores começavam a surgir, trazendo o característico aroma primaveril, emergia também do reino dos mortos Dioniso, para celebrar a Anthesteria. O festival de Anthesteria, que possivelmente deriva da palavra grega flores/anthos, ocorria no mês de anthesterion do calendário ático, aproximadamente em fevereiro, que marcava um limiar entre o fim do inverno e o começo da primavera. Sobre a etimologia da palavra há sugestões de que a origem também poderia ser de ana-thes-teria ritual cerimonial voltado ao apaziguamento dos mortos e purificação de miasmas como cita J.E.Harrison.
Em época de Anthesteria, Dioniso se regozijava em bênçãos e oferendas nos arredores do templo de Limnaion, dos pântanos. Neste festival, os templos eram fechados, temendo que os mortos invadissem os santuários, já que um dos principais aspectos do festival era de que naqueles três dias, entre o dia 11 e 13, os mortos voltariam para o mundo dos vivos e vagariam pela terra. Ateneu e Tucídides reforçam a associação entre o termo limnais e uma região pantanosa na Ática, onde ali fora erguido um templo em honra a Dioniso, onde os ritos eram celebrados. O que se tem certeza é que a celebração ocorria afastada da polis, rumando para as regiões periféricas, o que confirma o caráter ctônico do festival.
Em direção a esta região da periferia de Atenas, os devotos carregavam os pithoi com vinho novo, que era misturado com água no templo pelas sacerdotisas gerairai para ser oferecido ao deus e degustado pelos homens somente no segundo dia da festividade. A abertura dos tonéis identificados como pithoi indicava o rito inicial da celebração, que congregava toda a comunidade de cidadãos e de não cidadãos, incluindo também crianças e escravos (Hesíodo, FGrHist, 24:lvii). O ritual da Pithoigia era acompanhado de danças e ornamentos com flores, seguido de cantos, hinos e sacrifícios em louvor ao deus (Atheneu, FGrHist, 20:lxxiv) – Maria Regina Cândido.
O pseudo-Demóstenes (LIX. 76, p. 1371) fala deste santuário como o mais antigo e sagrado santuário do deus em Atenas; ele era aberto, segundo ele, apenas uma vez por ano, no dia 12 de Antesterion, o dia em que se realizava a antiga festa dionisíaca. – Pausânias – Periegese , I, XX, 3 – I, XXI, 3
O poder dionisíaco em seu êxtase rompia fronteiras que até então a polis ateniense mantinha com distinção entre ser ou não ser cidadão. O festival, subvertendo a lógica organizacional cotidiana, convidava escravizados, crianças e mulheres a participarem a celebração. Existem controvérsias habituais da historiografia no que diz respeito à ordem das práticas realizadas ao longo dos três dias. No entanto, o grande destaque simbólico da festividade era a celebração da fermentação do vinho da última safra. O desenterrar o vinho em toda a região da Ática era como um estado de êxtase ao contemplar a volta do espírito dionisíaco, personificado no sabor maduro do vinho que jazia na escuridão dos domínios subterrâneos.
A cultura material de artefatos e recipientes sagrados importa neste belo festival, expressando que os recipientes assumiam muitas vezes um lugar de sagrado na religiosidade grega. Cada dia da Anthesteria era nomeado com associação direta ao tipo de recipiente que serviria de receptáculo para as comidas e principalmente bebidas e líquidos da celebração, que, embora fosse popularizada a partir do calendário ático do período clássico, fontes como Tucídides afirmavam que o festival já ocorria no que hoje definimos como Idade do Bronze.
1º Dia – Pithoigía
Nome derivado dos pithoi, grandes recipientes ovais ou cônicos, com uma boca larga, geralmente usados para armazenar alimentos e bebidas (como azeite e vinho). Os pithoi são presentes em abundância na cena arqueológica cretense do período minoico, sendo distribuídos para as mais diversas regiões do que conhecemos hoje como Grécia. Os vasos poderiam chegar a tamanhos enormes, sendo também presentes em transportes marítimos, o que traz ao item arqueológico um caráter estrangeiro, visto que estes não nasceram em Atenas, mas provinham originalmente de locais distantes. De decorações simples até detalhadas, a multifuncionalidade de armazenamento dos pithoi vinha de alimentos e bebidas até mesmo aos mortos, já que os mesmos poderiam ser enterrados no vaso, que servia como urna.
Na festa de Anthesteria, os pithoi armazenavam o vinho fermentado que seria aberto com a Katagōgía de Dioniso. Katagōgía (do grego antigo καταγώγια, derivado de katágō, “conduzir para baixo”, “fazer retornar”) era o mesmo que fazer atracar um navio ou embarcação. Esta palavra expressa a vinda do deus, representando o começo do festival, onde Deubner cita que o desfile na carruagem-barco naval trazia Dioniso de volta a superfície, o que podemos interpretar como um retorno marítimo do reino de Hades. A comitiva naval simbolizava o atracar em terras, que ocorria entre músicas e vivas ao saudar o retorno do deus estrangeiro do êxtase e da vida indestrutível.

Era seguido desse festejo que realizavam a Pithoigia, momento em que algumas poucas sacerdotisas e sacerdotes abriam os grandes vasos para apreciar o vinho que passou o período do outono/inverno na escuridão. Antes que qualquer um vertesse um gole à boca, vivas a Dioniso! Misturavam o vinho novo à água para atenuar sua intensidade. Pithoigia era um dia de alegria, surpresa e graças ao concededor de uma bebida madura, que viria a fazer parte da vida religiosa.
2º Dia – Choes
Etimologicamente semelhante ao tipo tradicional de libação ctônica. Os choes são pequenos jarros de cerâmica do tipo oinochoe (jarro de servir/despejar), usados principalmente para verter vinho, beber ou derramar libações. Os choes possuem entre 9 e 6 cm, sendo geralmente voltados a crianças entre 3 e 10 anos. Pela manhã, estátuas eram trazidas entre flores dentro do carro naval, juntamente com o vinho. Neste dia, um rito de passagem ocorria, pois as crianças eram presenteadas com sua choe e nela beberiam o vinho pela primeira vez. Esse ato representava a inserção da criança nas celebrações religiosas e místicas da comunidade (Cerqueira). Neste dia, a atenção era concentrada nas crianças, que bebiam vinho enquanto recebiam afago, presentes e uma série de jogos.



Ao cair da tarde, havia competições de quem bebia mais vinho, ou mais rápido, diante da imagem do deus, onde o ganhador era coroado com flores e vinho. Era neste dia que, ao cair da noite, um cortejo de cerca de quatorze sacerdotisas, as gerairai, com tochas, saía de Limnaion para o Santuário de Mairais, no edifício Boukoleion, onde o rito de Hieros Gamos ocorreria, representando o casamento sagrado entre Dioniso e Ariadne. Segundo Hamilton, as sacerdotisas realizavam um voto de purificação e abstinência sexual para participar da hierogamia. A sacerdotisa esposa do basileus de Atenas era geralmente aquela que vivenciaria o casamento divino com Dioniso. Havia também nesta noite banquetes regados a músicas e doces; alguns banquetes eram mais reclusos, apenas para homens, e o maior, aberto ao público.

3º Dia – Chytroi
O terceiro dia era denominado a partir de chytra, um artefato semelhante a uma panela de cerâmica não vidrada com corpo arredondado, borda larga e alça em forma de tira que vai da borda até o ombro. As chytras serviam como caldeirões para o cozimento de grãos. Neste dia, Hermes Cthonios e Psychopompos, o condutor de almas, era o protagonista, pois estava nele o poder de fazer com que os mortos retornassem para o Hades após a celebração.

Nestes caldeirões era feita a Panspermia, uma mistura de grãos da estação preparada em honra aos mortos — e exclusivamente a eles — e às divindades ctônicas para se saciarem. Neste dia também ocorria a hydrophoria, onde as mulheres carregavam jarros de libação na cabeça a fim de derramar aos mortos, esperando que estes voltassem em paz ao submundo. Ao oferecer a panspermia e a libação, elas então gritavam: “Fora, Keres, a Anthesteria acabou!”
” W. Deubner e E. Simon relatam, ainda, sobre outra festa, a Aiora, um ritual privado em que meninos e meninas eram embalados em balanços suspensos às árvores. Apesar de que podia ser um simples brinquedo de crianças, E. Simon alega que há vasos em que o balanço, bem como as crianças, estão coroados para o festival (SIMON, 1983, p.99). O vaso com um sileno empurrando uma menina num balanço parece sugerir ligação com as Antestérias (DEUBNER, 1959, pr.18.1). No entanto, como boa parte dos eventos que ocorriam no terceiro dia, a Aiora nada tinha a ver diretamente com Dioniso; inseria-se, porém, de forma coerente dentro das Antestérias, enquanto um ritual de fertilidade, como explica o mito que lhe originou: Erígone, filha de Ikarios, suicidou-se quando ele, o introdutor da viticultura na Ática, foi morto por seus seguidores, os quais achavam que ele os tinha envenenado com o vinho; ela se matou jogando-se de cima de uma árvore; diante de uma praga que se alastrou em Atenas, o oráculo de Delfos aconselhou pendurarem máscaras e figuras nas árvores, bem como balanços para embalar as crianças, de modo a erradicar a peste. Trata-se, então, de um ritual purificatório da vegetação. – CERQUEIRA.


O último dia era marcado pelo cuidado aos mortos para que se sentissem apaziguados, sendo também um momento de tensão pela necessidade de expulsar os daimons da fatalidade e da morte violenta que vagavam também entre os vivos.
Por que convém às Bruxas Ctônicas celebrar Anthesteria?
Para as bruxas ctônicas, o fim do inverno e o começo da primavera marcam o momento em que saímos do ciclo do submundo e subimos com Perséfone, sendo este um propício momento para que façamos ritos de purificação e de apaziguamento dos mortos. A saída do ciclo de escuridão outono/inverno coincide com a Anthesteria (Transição Inverno para Primavera), sendo tais ritos profundamente satisfatórios para a garantia de proteção com a chegada da primavera. A Anthesteria é como uma festa ctônica e fúnebre com tons arrepiantes, que muitas vezes se identifica com a energia do, Halloween no paganismo, em seu sentido energético de que “o véu entre os mundos está tênue”, mesmo que as correspondências e preceitos sejam bem distintos. Para nós, é o período pré-primavera que traz essa tônica pela força ancestral da Anthesteria, sendo inclusive um momento em que é interessante reservar os três dias pré primabera (11, 12 e 13 de Setembro) para se preencher de katharmos (purificação) por meio da alegria, da leveza e do espírito da criança, representando a vida e a renovação que se aproximam.
Em época de Anthesteria, os espíritos ancestrais pedem atenção, e muitos lamentam em busca de oferendas. Façamos com respeito, como os antigos helênicos faziam ao ofertar flores, libações e oferendas aos mortos, sem jamais esquecer de que a vida nos pertence como uma dádiva que deve ser bebericada com a animosidade e a espontaneidade de uma criança ao receber seu choes, e ser adorada no sagrado festival que é Dioniso em seu êxtase. Na Anthesteria, as barreiras da purificação têm cheiro de vinho, de nostalgia, de infância e alegria, mas também de morte e de funestas manifestações que pairam em nosso reino mortal.
Celebrando Anthesteria na Bruxaria Ctônica
| Tabela de Correspondências – Anthesteria (Bruxaria Ctônica) Data: 11, 12 e 13 de Setembro (Alinhamento sazonal correspondente). Divindades: Dioniso (Protagonista) e Hermes Cthonios / Psychopompos (condutor das almas ao Hades) Vinho Novo + Água: Temperança, transição da escuridão para a vida, comunhão Grãos Variados (Panspermia): Alimento exclusivo para mortos e divindades ctônicas, junção dos grãos do seu lar. Velas Roxas/Vinho: Dioniso e a abertura dos jarros de vinho Velas Pretas: Hermes Psychopompos e o retorno dos mortos ao submundo Ervas Purificadoras: Louro, sálvia e alecrim (katharmos) |
1º Dia – Pithoigía
- Decore o altar em honra a Dioniso tendo uvas, velas nas cores roxa/vinho e o vinho como oferenda no altar.
- Abra-o e entoe o Hino Órfico a Dioniso. Beba apenas no dia seguinte.
- Abrace seus familiares e amigos, sinta o amor daqueles que vivem, e assim também neste dia procure espantar a tristeza, a apatia e a angústia do seu coração, para que tenha uma primavera e subida tranquila.
2º Dia – Choes
- Presenteie uma criança ou seus filhos com uma caneca especial dedicada a Dioniso e oferte como primeira bebida suco integral de uva.
- Compre presentes para a criança e chame-a para dançar. Ou faça uma doação para instituições de caridade infantil. Essa também é um boa época para refletir sobre adoção e a possibilidade de tornar a vida de uma criança mais feliz.
- Se o seu filho atravessou o véu para o Hades, presenteie-o da mesma forma: ele irá se alegrar com as suas oferendas. Aproveite esse momento para chorar, liberar o aperto no peito e também tomar vinho abrandado (água misturada ao vinho) em estado de comunhão com Dioniso. Solte sua voz e coloque para fora suas emoções reprimidas, permitindo que esse dia seja catártico. Finalize o dia fazendo algum prato doce e acolhedor.
- Caso você conheça alguém que está de luto, convide essa pessoa para um banquete em sua casa, inspirado em Anthesteria.
Dia 3 – Chytroi
- Prepare uma mistura ensopada de todos os grãos que os deuses te concederam em sua casa (uma porção de cada) e coloque num recipiente destinado só para oferenda aos mortos. Vá até uma área aberta com o ensopado e o vaso de libações em vinho. Faça uma cova fora de casa em uma área aberta e derrame primeiro a bebida e depois a sopa para os mortos, entoando com veemência: “Adeus, a Anthesteria acabou!”
- Neste dia também, antes do cair da noite, acenda velas pretas para Hermes Psychopompos e reforce suas proteções fazendo fumigações e banhos purificadores com ramos de louro, sálvia e alecrim. Você também pode preparar a khernips e aspergir na entrada de sua casa, nos pets, nas crianças e em integrantes da família enquanto afasta os espíritos dos mortos “Fora phasmas, voltem ao Hades, a Anthesteria acabou!”

Receitas de Apoio
Khenips – Purificação por água
Melitoutta – Bolinhos Fúnebres (Perfeitos para Anthesteria, Deipnon, Peridipnon)
Referencias Bibliográficas:
- Pausânias. Descrição da Grécia. Livro 1, capítulo 18, seção 7.
- Sardegna Cultura. Complesso nuragico di S’Arcu e Is Forros: Reperti – Phitoi. Virtual Archaeology.
- The British Museum. Oinochoe (Collection object G1864,1007.1937)
- National Archaeological Museum. A child on the aiōra. Monthly Artefact.
- BAŽANT, Jan. Children on Choes. Heidelberg: Propylaeum, 2024.
- CÂNDIDO, Maria Regina. As choes e o ritual das Anthestérias. In: XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH. São Paulo, 2011.
- CERQUEIRA, Fábio Vergara. As Antestérias, um ritual carnavalesco de transgressão e afirmação da ordem social na Antiga Atenas (séc. VI e V a.C.).
