A magia no mundo grego

Magos (μάγος), é a palavra de origem persa, usada inicialmente para designar os sacerdotes zoroastristas. Em textos gregos do século V a.C. (Heródoto, por exemplo). Estes eram praticantes de Mageía (μαγεία) — Magia.

A prática da magia era vista pelos gregos como um tipo de atividade associada aos estrangeiros, sobretudo aos persas, estes que eram vistos como bárbaros e selvagens. Logo, a ideia de magia acaba sendo contaminada por essa mentalidade, fazendo com que a prática fosse vista de forma suspeita e perigosa.

É importante entendermos que esse pensamento a respeito da magia não era o mesmo em toda a Grécia Antiga. Estamos lidando com uma civilização multifacetada, com processos de desenvolvimento independentes em cada pólis. Essa crença na magia como algo suspeito e perigoso, associado a estrangeiros, é fortalecida em Atenas, no período clássico. A magia era considerada uma hybris (a mancha dos inimigos). Mas como essa mentalidade foi construída?

Tessália: O berço da feitiçaria helênica

A Tessália era uma região localizada no nordeste da Grécia continental. Sua localização geográfica provocava uma divisão entre o sul e o norte da Grécia, sendo o sul mais associado à ideia de civilidade e o norte à agressividade bárbara e tribal das tribos Bálcãs. Dessa forma, ela serviu como uma barreira natural que impedia o contato direto entre essas duas regiões.

A grandiosa Tessália era uma região selvagem, repleta de florestas e vales, sendo muito arborizada. Ela era tão extensa que isso dificultou a unificação de um único sistema de regência, fazendo com que a mesma se dividisse em quatro tetrarquias — isso para além das regiões marginais que ali existiam.

A Tessália era uma terra de muitos mitos, terra natal do herói Aquiles e também de Asclépio; morada do centauro Quíron, importante símbolo representativo da imagem da Tessália na Grécia Antiga antes do século V. Ela era vista como o berço da magia e da feitiçaria: uma região com uma terra mágica, propícia para se desenvolver nas artes ocultas. Os tessalianos se orgulhavam dessa reputação de região mística.

Mas é no contexto político que podemos entender como a mentalidade dos gregos a respeito da magia e feitiçaria foi construída. 

Durante o século V a.C., houve uma mudança marcante na atitude ateniense em relação à magia, que passou a ser cada vez mais marginalizada da cultura da pólis. Paralelamente, a imagem do tessaliano também se tornou mais negativa. Para o ateniense, tanto a magia quanto os tessalianos tinham associações com a Pérsia e, por isso, passaram a ser vistos como parte do mundo do “outro”. – Briam Clark 

Quando os persas iniciaram a campanha para dominar o território grego, com o rei Xerxes I, em 480 a.E.C., eles vieram através da região norte, avançando pela Macedônia. A Tessália foi uma das primeiras regiões da Grécia a prontamente se submeter voluntariamente aos persas; isso para evitar conflitos diretos e destruição. Essa guerra ficou conhecida como as Guerras Médicas, e um de seus episódios mais famosos foi a Batalha das Termópilas.

“Os tessálios prontamente ofereceram hospitalidade e submeteram-se a Xerxes.” – Heródoto (Histórias 7.132)

É dessa maneira e a partir da entrada pela Tessália que os persas avançam para as regiões sul da Grécia. Acontece a Batalha das Termópilas, liderada pelos espartanos, mas os gregos recuam; isso motiva os persas a invadir e saquear totalmente Atenas em 480 a.E.C. É dessa forma que, se antes a Tessália era vista como uma região selvagem onde o mundo terreno e o místico se encontravam, e onde o selvagem permanecia, depois desse acontecimento a reputação da Tessália muda para sempre — e para pior.

Após a batalha, Atenas passa a se refazer e a reconstruir seu ethos, seu corpo coletivo de valores, e com essa reforma, a elite ateniense passa a associar a magia à barbaridade e a algo não civilizado. Não foi difícil associar a prática da magia ao feminino marginalizado, já que as parteiras, curandeiras e mulheres-medicina geralmente viviam em regiões mais afastadas da elite ateniense, fora da esfera cívica. Em bora não exista qualquer indício de lei em Atenas contra a magia, nos casos de justiça, há uma série de citações envolvendo o uso de magia como algo prejudicial, mas nos arquivos importa mais a intenção do usuário e a finalidade para a qual ela foi usada do que, de fato, a proibição da mesma, já que não havia lei que a proibisse diretamente a magia.

Se, entre 800 a.E.C., na Odisseia, a pharmakis — a feiticeira — era a figura sedutora e temível espelhada em Circe, no período clássico ela também se torna uma figura diretamente associada à oposição e contrariedade à ordem estabelecida pela pólis ateniense.Nela, foi colocada toda a repulsividade dos inimigos e estrangeiros.

“Minha hipótese é que a lenda da bruxa tessaliana foi inventada no século V a.C., quando os atenienses passaram a polarizar tudo o que não era grego como ‘bárbaro’. A Tessália, por sua localização e reputação, tornou-se o alvo ideal dessa polarização.” — Brian Clark

As feiticeiras helênicas foram frequentemente citadas nas narrativas mitológicas romanas nos períodos seguintes, contribuindo para a construção da mentalidade da bruxa nos períodos inquisitoriais.

Assista a versão audiovisual deste conteúdo:

Referências:

HERODOTO. Histórias.

COLLINS, Derek. Magic in the Ancient Greek World.

FUHRER, Therese. Thessalian witches: an ethnic construct in Apuleius’ Metamorphoses.

BREMMER, Jan N. The birth of the term ‘magic’. In: JANSSEN, Marijke G. M. (Org.).


Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *