Descoberta arqueológica na Itália revela que Hades tinha barba azul
A popular representação de Hades em tons de azul na animação Hércules, da Disney, marcou o deus como uma divindade sinistra e peculiar. Posteriormente, ele continuou sendo representado em azul na HQ Lore Olympus, onde é o protagonista ao lado de Perséfone. Tal escolha visual parece emanar de uma liberdade criativa dos autores, que optaram por trazer o azul por ser este um tom comumente associado ao inconsciente e à camada profunda das nossas emoções. No entanto, a descoberta da arqueóloga Serena Raffiotta nos prova que Hades e o tom de azul em sua imagem têm uma ligação muito mais ancestral do que se poderia imaginar.

No centro da Sicília, na cidade de Aidone, o sítio arqueológico de Morgantina abriga uma coleção impressionante de peças arqueológicas que confirmam o culto e o protagonismo de Perséfone, Hades e Deméter na região. É neste sítio arqueológico que a pesquisadora Serena estava, entre 2004 e 2005, estudando para sua dissertação. Segundo ela, foi classificando figuras de terracota do santuário de Contrada San Francesco Bisconti, citado no livro O caminho de Perséfone (Pág. 133 e 134), que teve contato com um curioso objeto: o pedaço de um grosso e encaracolado cabelo azul-claro, feito de terracota, que havia restado após um saqueamento de tumbas ocorrido em 1977 e 1978.

Serena o adicionou à sua pesquisa arqueológica, que em 2009 chegou às mãos da arqueóloga Lucia Feruzza. Ao verificar a tabela de anexos, Lucia reconheceu o raro e inconfundível tom de azul do cacho, associando-o diretamente à cabeça de barba azul presente no Museu Getty, em Los Angeles. Em 2011, mais três cachos de Hades foram encontrados na região do sítio arqueológico italiano, ajudando a formar as provas necessárias para repatriar a cabeça do deus para sua terra. Os cachos azuis peculiares de Hades foram conduzidos para uma análise no Museu Getty, o que confirmou que a cabeça de Hades pertencia ao culto do deus em Morgantina.

O Busto de Hades
Busto grego helenístico de Hades, datado dos séculos IV–III a.e.c.
“Uma cabeça masculina em terracota em tamanho real (29 cm de altura) com uma espessa barba azul-clara e um volumoso penteado castanho-avermelhado. Tanto a barba quanto o cabelo consistem em cachos em espiral, moldados à mão um por um, aplicados na cabeça antes da queima. Incisões profundas, provavelmente destinadas à colocação de cílios metálicos, definem os olhos amendoados; os lábios estão ligeiramente entreabertos. Juntamente com os pigmentos bem preservados da barba e do cabelo (azul egípcio e hematita vermelha), esses traços conferem um realismo impressionante à cabeça.” — Serena Raffiotta, Arqueóloga e Pesquisadora Independente, Enna, Itália
A cabeça de Hades havia chegado ao Museu Getty por meio de contrabando, sendo vendida ao magnata de diamantes africanos Maurice Tempelsman, que a repassou a um negociante que a vendeu ao museu por 530.000 dólares. Em 2011, logo após a suspeita de ilegalidade, a cabeça de Hades foi retirada da exposição e retornou à sua terra natal em 29 de janeiro de 2016.
A jornada de Serena e das autoridades da Sicília para repatriar a cabeça de Hades é um exemplo dos esforços que arqueólogos realizam para combater o mercado ilegal de antiguidades, sobretudo na região de Morgantina — um local que sofreu sucessivos saqueamentos de tumbas, o que acabou prejudicando descobertas associadas ao culto ctônico praticado na região.
Essa informação curiosamente nos confirma a ligação ancestral de Hades com o azul, uma cor rara de influência egípcia (no passado, feita à base de sílica, cobre e cálcio) geralmente utilizada para evidenciar nas divindades atributos sobrenaturais; no caso de Hades, reforçando seu mistério e ligação com o submundo. O azul-claro também é atribuído, no orfismo, à cor de pele das Erínias, as três vinganças consideradas filhas de Hades e Perséfone.
Essa história arqueológica nos mostra o quanto a arqueologia é um campo fértil para a Bruxa Ctônica. Uma ciência viva, que nos permite mudar a nossa perspectiva sobre as divindades a cada nova descoberta. Muitas vezes, aquilo que vemos hoje — e podemos pensar tratar-se de um equívoco ou distorção da realidade de como essas divindades eram realmente representadas no passado — pode possuir alguma ligação antiga com os seus mistérios, porém sendo hoje representados de formas atualizadas.
Os deuses são astutos: continuam incorporados à cultura e apresentando seus mistérios para aqueles que estão abertos para desvendá-los, sem preconceitos. Perguntas surgem e, com isso, podemos fazer novas conexões, como por exemplo: será que a cabeça de Hades poderia ter sido um elemento criativo que inspirou o conto do Barba Azul? Uma trama sanguinária com elementos que atravessam juventude roubada, riqueza, distanciamento de casa, casamento e abuso de poder.
O que temos a certeza é de que precisamos tomar muito cuidado com o que julgamos raso ou descolado do passado, pois, afinal de contas, existem muitas coisas enterradas na história que ainda não foram descobertas. Os deuses brincam com nossas certezas, e um único fio de cabelo pode ser capaz de derrubar todas as nossas convicções.

Referências Bibliográficas:
RAFFIOTTA.Serena. “Hades’ Head, a Greek Hellenistic Masterpiece from Morgantina, Sicily.
S. RAFFIOTTA, Il ritorno del dio degli Inferi a Morgantina, in T. CEVOLI (org.), Archeomafie. Open Access Journal of Cultural Heritage Protection, Ano VII (2015), Nápoles, 2015, pp. 69-91.
S. RAFFIOTTA, Una divinità maschile per Morgantina, in CSIG News. Newsletter of the Coroplastic Studies Interest Group, nº 11, Inverno 2014, pp. 23-26.