Pinakes, tabuinha votiva, Hades e Perséfone sentados em um trono recebendo oferendas dos devotos. Hades segura o prato de oferenda e Perséfone segura um galo que descansa em seu colo.

A Bruxaria Ctônica é uma vertente de bruxaria politeísta helênica ctônica, que se concentra no enraizamento a partir dos costumes, crenças e manifestações culturais do povo helênico. Sendo assim, fundamenta-se em tradições e manifestações folclóricas ctônicas difundidas nos territórios da antiga Grécia, Roma e Itália a respeito das divindades do submundo. A Bruxaria Ctônica é uma vertente de escavadores de mitos e de expressões artísticas, culinárias, orais, arqueológicas, literárias e religiosas do ctonismo, que busca no eixo histórico o seu norteador principal. O foco volta-se às práticas que ocorriam não apenas entre a aristocracia das principais pólis, mas também em regiões diversas, periféricas e rurais, que assimilaram crenças, mitos, e práticas de feitiçaria (pharmakeia) do culto a divindades ctônicas.

Obsidiyana – Criadora do Manifesto da Bruxaria Ctônica

“Bruxas e hereges do novo tempo, que buscam pautar suas práticas no conhecimento e responsabilidade espiritual, serão hoje responsáveis por transformar a cultura da obscuridade espiritual em ações práticas de impacto pessoal e social, que visam uma reeducação a respeito de questões renegadas da espiritualidade: morte, sexualidade, profano, necromancia, a própria feitiçaria das vísceras da terra. A Bruxaria Ctônica é mais do que uma vertente, é um movimento que nos convida a viver a bruxaria como um caminho espiritual de resistência e continuidade dos mitos e saberes pagãos, estando abertos a compreender como as deusas e deuses foram e são incorporados no mundo moderno. O ctonismo está sempre atravessado no folclore grego, portanto as práticas são oriundas de mitos, crenças e tradições que possuem caráter obscuro e voltado a comunicação com o submundo ou divindades ctônicas.

Manifesto da Bruxaria Ctônica

Conclusão

O ctonismo se manifesta na bruxaria desde a formação dos primeiros covens, o que nos permite considerar que estes, de fato, praticavam magia ctônica. No entanto, não necessariamente estes espaços se declaravam como Bruxaria Ctônica, visto que o culto as divindades ctônicas ocorreu e ocorre nas mais variadas vertentes; a bruxaria ctônica distingue-se por sua definição coletiva e social enquanto politeísta helênica ctônica, bem como sua autodeclaração vinculada ao impacto social sobre a morte e a abrangência de culto e olhar ao ctônico: não se limita apenas às divindades ou algumas delas, mas ao ctonismo em si, em uma busca ativa e constante pela cultura material como base referencial para a vivência mágica.

A bruxaria ctônica, portanto, não deve ser equiparada a vivências realizadas em covens e espaços de bruxaria com divindades ctônicas, caso esses locais não se declarem como tal. Isso significa que não é adequado definir grupos e pessoas como “bruxas ctônicas” se elas próprias não o fazem, simplesmente por cultuarem divindades ctônicas dentro de outros sistemas, pois existem varias outras vertentes de bruxaria que cultuam os ctônicos, isso não é exclusivo da Bruxaria Ctônica. Essa vertente não se isola como a única por onde o culto aos ctônicos é possível. Sendo assim, embora o culto a essas divindades esteja presente em diversas vertentes da bruxaria e do politeísmo helênico, a bruxaria ctônica empenha-se em organizar-se como uma vertente que se move rumo ao foco na organização social, coletiva e cultural desse corpo de crenças e costumes associados ao ctonismo, construindo um jornada fundamentada, direcionada, centrada na tradição e focada na perpetuação da história de divindades ctônicas do panteão helênico e daqueles que as cultuavam.

A bruxaria ctônica é uma vertente que tem ganhado forma e sedimentação na atualidade, mas solidificada na historicidade helênica, romana e itálica, buscando vínculo direto com o passado. Dessa forma, aproxima-se mais de uma vertente de bruxaria tradicional do que de acepções neopagãs adquiridas de impressões diretas de outras vertentes já formadas que têm a Wicca como referência e ramo de influência. A busca da bruxa ctônica se dá na investigação do passado como eixo e caminho para encontrar as respostas para a conexão e o culto aos ctônicos. Esse caminho, quando atravessado na bruxaria, encontra base e noção de culto na antropologia e na história a respeito da bruxaria tradicional.

Portanto, a bruxaria ctônica não nasce como um “contrarramo” do helenismo moderno, pois não se baseia diretamente em seus rituais para a formulação de algo novo. Este foco envereda-se na escavação e investigação direta de fontes primárias e secundárias a respeito do culto às divindades ctônicas e à maneira como elas foram incorporadas na transição entre o culto antigo e a inserção em clãs e caminhos da tradição de bruxaria nas regiões de Roma, Grécia e Itália. Este elo com o folk mantém a bruxaria ctônica comprometida com o resgate e a continuidade dos costumes daqueles que cultuavam os ctônicos ou que acreditavam em seu poder e magia, sobretudo aqueles que a praticavam mesmo sendo vistos de formas estigmatizadas pelos antigos. Por mais que algumas dessas práticas tenham sido vistas como sujas, marginais e profanas no passado, a bruxaria ctônica não olha apenas para o que está óbvio e estabelecido pela religiosidade helênica, mas se interessa e sonda o território obscuro e marginal, onde necromantes, feiticeiras e pessoas rotuladas realizavam magia.