Cultuar as divindades ctônicas atrai miasma? – Parte III

LEIA A PARTE I ou PARTE II

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Na Grécia Antiga, a purificação não era simplesmente uma limpeza, mas uma forma de desobstrução da consciência a fim de contatar as divindades. Através da purificação, era possível transformar aquilo que não era visto em tangível e visível. Era possível acessar o divino. Dentro do contexto helênico, é como se entre nós e os deuses houvesse algo que embaça nossas mentes e, se não limpo, acaba obscurecendo totalmente nossa visão oculta.

Limpar era uma forma de tornar o metafísico algo totalmente palpável (Parker, 1996). Portanto, purificar-se é sobre conseguir vislumbrar e acessar o divino. Sem a purificação, não havia acesso às divindades. Embora as divindades ctônicas não emanem miasma, elas geralmente nos conduzem a envolvimentos diretos com o mundo dos mortos e, por isso, a purificação se faz importante para que possamos manter a conexão com eles de forma saudável.

Hoje, como bruxas que se conectam com o submundo, podemos realizar purificações inspirando-nos em modelos antigos de práticas que eram realizadas pelo povo helênico, a partir de legislações fúnebres propostas por Sólon e outras regulamentações difundidas entre as póleis da Grécia.

Atos que podem ser realizados após rituais com divindades do submundo

  • Aspergir a casa com água do mar (pode ser da chuva).
  • Fazer oferendas diante do fogo aceso ou o do caldeirão.
  • Limpar o ambiente do ritual antes do amanhecer com água consagrada.
  • Fazer fumigação de ervas no ambiente.
  • Levar dejetos para fora e enterra-los em uma cova.
  • Sempre tomar banho após os rituais.

Um dos gestos mágicos de purificação mais importantes atualmente é fazer terapia. A terapia é fundamental para quem realiza um trabalho de conexão com as divindades do submundo, uma vez que, para nós, bruxas ctônicas, ela serve como um purificador de questões conscienciais, permitindo-nos organizar, entender e perceber as coisas que acontecem dentro e fora de nós com mais clareza.

Alguns praticantes do culto a divindades helênicas podem propor que é necessário estar em estado de total alegria ao contatar as divindades, pois isso representaria pureza; no entanto, isso não faz o menor sentido para o culto a divindades ctônicas e não deve ser entendido como um tipo de lei seguida em toda a Grécia Antiga. Nos registros mitológicos, sobretudo aqueles ligados a divindades do submundo, vemos que muitos devotos buscavam-nas em situações de luto, desespero e angústia, e não somente em momentos de alegria. Celebrar com as divindades é genuinamente sagrado, mas considerar a felicidade como um requisito para comungar com elas é violento.

Bruxaria ctônica gera miasma?

A palavra “bruxaria” não foi mencionada pelos gregos enquanto uma prática que produz miasma — inclusive, até hoje existem muitas dúvidas sobre a origem dessa palavra; o que se sabe é que o período de maior menção foi no século XVI, em documentos inquisitoriais. Insinuar que a bruxaria causa miasma e que isso tem alguma ligação com a Grécia Antiga trata-se de preconceito religioso. Para nós, bruxas ctônicas, a bruxaria pode e deve ser um caminho híbrido que comporta nossas práticas permeadas entre a vida e a morte. A bruxaria ctônica pode, sobretudo, trazer nosso espírito de volta à vida; isso se nos abrirmos para o movimento de transformação que ela nos possibilita — mas creio que esse é tema para um outro artigo.

Deixo aqui um conselho final: se você não faz parte de uma religião e não segue dogmas preestabelecidos, não deixe que os outros imbuam na sua realidade espiritual regras que eles têm para si mesmos sobre o que os torna infames. Sendo assim, nossa mancha mortal não é algo estático; é mutável e precisa ser sempre gerenciada a partir de um exame da nossa própria consciência sobre nossa conduta com nós mesmos e com o mundo que nos rodeia.

O miasma do passado não é o mesmo do presente; a vida muda e se transforma e, se não quisermos provocar o agos, precisamos parar de bestificar os deuses e achar que eles continuam parados no tempo, pois é justamente a capacidade de cocriação infinita que os mantém cada vez mais vivos e incorporados à nossa realidade. Os deuses se atualizam, nós também devemos, e podemos, ainda assim, continuar honrando a ancestralidade helênica. Sendo assim, o miasma transpõe — e muito — a esfera física e, nos tempos caóticos de hoje, precisa começar a ser cada vez mais percebido como uma força de contaminação simbólica, espiritual e psíquica; uma força que exige análise intimista e pessoal de cada um, para muito além de apontar o dedo sobre a prática do outro e julgar o que é contaminante ou não.

Referências:

PARKER, Robert. Miasma: Pollution and Purification in Early GreekReligion

ECKERT, Maureen. Euthyphro and the Logic of Miasma

KANNADAN. Ajesh. History of the Miasma Theory of Disease

KIOSI. Evaggelia . Τhe Ancient Greek Ἄγος (Agos) and the Warrior Ethos

HESIODO. Teogonia

Odisseia. Homero

Glossary Of Miasma and Purification in ancient greek religion – Hellenic Gods

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