Perguntas

Perguntas e respostas sobre a Bruxaria Ctônica
A bruxaria ctônica se opõe a alguma corrente reconstrucionista, revivalista ou bruxa?
A Bruxaria Ctônica, enquanto vertente, não nasce nem se solidifica em oposição a qualquer outra corrente reconstrucionista, revivalista ou bruxa. Da criação do Manifesto até a sua germinação, a intenção fundamental não emana de uma contraposição delimitada a outros sistemas, embora — assim como qualquer outra — a Bruxaria Ctônica possua diferenciações no que diz respeito a pilares, ideais e até mesmo ao culto às divindades.
No que tange à “oposição”, o foco de sua disseminação concentra-se em opor-se a valores etnocêntricos, colonizadores e hegemônicos que tendem a modificar, apagar ou invisibilizar práticas, cultos e o reconhecimento de manifestações ligadas ao sombrio, à morte, à necromancia e à feitiçaria no território helênico. Buscamos, assim, contrastar com o culto às divindades helênicas restrito apenas ao ideal de luz, beleza clássica e pureza em sua roupagem mais superficial. Mesmo assim, a oposição é levada sempre ao centro de importância filosófica e democrática: a questão social, política e cultural, e não a uma determinada manifestação ou sistema de práticas específico.
Eu posso viver um processo terapêutico com as divindades ctônicas?
No Manifesto da Bruxaria Ctônica, a terapia e o acompanhamento psicológico são incentivados entre os praticantes justamente para que se faça uma distinção entre o trabalho espiritual e o terapeutico, visto que, muitas vezes, no caminho da bruxaria, da arte e da conexão com as divindades ctônicas, somos levados a encarar nossos aspectos sombrios. Esse estado de confronto surge não apenas com divindades ctônicas, mas em qualquer caminho mágico que se propõe a ser, de fato, profundamente transformador.
A bruxaria, em seu cerne, é uma via tortuosa que nos revira de cabeça para baixo ao nos apresentar a possibilidade de romper com a ideia contrastada de bem e mal, mergulhando-nos no território cinza, onde a amoralidade opera como soberana. O processo terapêutico é necessário, mas deve ser buscado fora, como um ancorador e aterrador dos trabalhos espirituais da bruxa ctônica. As divindades ctônicas têm o poder de, por meio da magia, da feitiçaria e da devoção, transformar aquilo que reconhecemos em nós como potência em algo verdadeiramente tangível, manifestado em nossa realidade carnal; mas isso não significa que sejam elas as forças que nos conduzem à assimilação consciente, lógica e orientada do nosso potencial — isso é feito por meio da terapia psicológica.
Divindades ctônicas e a própria Bruxaria Ctônica não são terapêuticas. A Divindade e o Caminho nos fortalecem para transformar o material bruto, reconhecido dentro da terapia, em algo realmente significativo em nossa realidade. Sendo assim, ambos — divindades e vertente — nos ajudam a sacralizar o que foi percebido sobre nossas luzes e sombras, mas, de fato, não são terapêuticos, podendo revelar-se até mesmo traumáticos ou catalisadores de danos caso o praticante insista em misturar as coisas sem um tipo de acompanhamento adequado. Isso serve para qualquer bruxaria, por mais inofensiva que algumas pareçam.
Eu posso chamar qualquer divindade ou entidade de ctônica?
Precisamos redobrar o cuidado para que não se reproduza uma postura etnocêntrica, ainda que de forma inconsciente. É importante evitar colocar a Grécia e a cultura helênica no centro de tudo. A palavra “ctônico” tem origem no grego χθόνιος (khthonios) palavra de acepção religiosa de carater quase exclusivamente poético para se referenciar as divindades subterrâneas, ou associadas ao submundo. Esse termo era utilizado dentro do contexto e da realidade helênica — no teatro ático e em outras regiões — para representar divindades do subsolo, responsáveis desde o desenvolvimento oculto das plantas até o mundo subterrâneo dos mortos, ou seja, o reino de Hades.
Portanto, não é adequado — tornando-se, inclusive, etnocêntrico e desrespeitoso — chamar divindades obscuras dos panteões indígena, iorubá, nórdico e outros de “ctônicas”. Ao trabalharmos com uma vertente correspondente a uma cultura frequentemente (e erroneamente) vista como superior, nosso cuidado ao usar termos, práticas e elementos helênicos para adjetivar ou inserir em cultos de outros panteões deve ser redobrado. Existem termos mais abrangentes, como “obscuras”, “sombrias”, “sinistras” ou mesmo palavras próprias de cada panteão, para adjetivar as divindades que pertencem ao reino dos mortos, sem cair na tendência colonizadora de “helenizar” tudo ao nosso redor.
Posso cultuar outros panteões e ser bruxa ctônica?
Uma bruxa pode pertencer a mais de uma vertente de bruxaria, desde que tenha o discernimento de separar o que pertence a cada uma delas. Algumas práticas e valores convergem; porém, outros, se incorporados a outra vertente, podem contribuir para uma apropriação cultural disfarçada de sincretismo contemporâneo.É preciso atentar-se, organizar-se e exercer a sabedoria de entender que não é porque, por exemplo, você trabalha com o submundo helênico, que as tratativas com os mortos, os daimons e as divindades sejam as mesmas exercidas no submundo nórdico, iorubá ou outros. Ao trabalhar com mais de uma vertente ou panteão, é fundamental ater-se à estrutura de culto, aos preceitos, aos fundamentos e às práticas que correspondem ao panteão ou à cultura relacionada a ele.

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