O que é a Bruxaria Ctônica?

A semente da vertente
O Manifesto da Bruxaria Ctônica, uma vertente de bruxaria politeísta helênica, nasceu de uma necessidade de enraizamento e reafirmação coletiva, assim como nasce todo manifesto que se propõe a gerar impacto social, político e cultural em uma comunidade. Ao longo da minha trajetória como sacerdotisa de Perséfone e devota dos ctônicos, pude interagir com um grande número de pessoas que mantinham um profundo interesse em desenvolver uma devoção respeitosa, sólida e estruturada a essas divindades. Muitas delas procuravam acessar vertentes, sendas, tradições e covens buscando desenvolver essa conexão, que não ocorria de forma fundamentalmente ctônica — isto é, direcionada não apenas a uma, mas à família de divindades ctônicas e seu corpo de práticas, costumes e crenças helênicas.
Embora o culto a divindades ctônicas esteja presente desde a formação dos primeiros covens de bruxaria, muito antes do século XX, esta prática e devoção permaneceu por muito tempo diluída dentro de sistemas mágicos e variadas vertentes, sem nunca se estabelecer como vertente com vínculo próprio entre a bruxaria e o ctonismo ancestral inerente da cultura helênica.
A falta de definição nunca impediu que bruxas continuassem a cultuar os ctônicos em suas congregações e sistemas próprios; porém, com o avanço tecnológico das informações, tais práticas — antes herméticas e restritas a pequenos grupos — passaram a ser popularizadas na internet. Com a variação de sistemas e formas interpretativas a respeito do culto e reverência aos ctônicos dentro da bruxaria, aqueles que sentiam o chamado para honrar as divindades do submundo helênico de forma autônoma passaram a expressar dificuldade em compreender o que pertencia a determinado grupo ou vertente, e o que poderia ser algo enraizado nas crenças da cultura helênica.
Essa dificuldade de distinção para sedimentação de um caminho direcionado com os ctônicos, provinha também do fato de diversos espaços neopagãos possuírem práticas que mesclam diferentes sistemas mágicos e, por vezes, divindades de diferentes culturas, o que pode fazer total sentido dentro de cada coven e até mesmo em vertentes mais ecléticas, mas não necessariamente acolha os anseios de quem busca fundamentar seus caminhos de forma direcionada e específica às divindades helênicas do submundo. Assim, nasce a Bruxaria Ctônica como vertente, uma forma de sedimentar caminhos para que uma prática focada no fortalecimento das crenças e da base ancestral da cultura helênica sirva de alicerce para trajetórias não apenas autônomas, mas também coletivas.
Para além da dificuldade de assimilação do que seria invariavelmente helênico ou ctônico, outras carências foram manifestadas de forma significativa. Aqueles que buscam manter uma prioridade de culto aos ctônicos e se declaram bruxas relatam sentir, frequentemente, a hostilidade de serem vistos como pessoas dissociadas da ancestralidade helênica. Há uma ferida coletiva na visão de que a bruxa que prioriza o culto ctônico não possui rigor histórico, por seus ritos poderem não ser fundamentados integralmente na religião oficial estabelecida pela pólis ateniense nos períodos clássico e helenístico.
Há uma recusa da hegemonia classista em reconhecer que muitas destas bruxas são enraizadas e comprometidas com a historicidade, pois estas não estão, aos olhos desses grupos, servindo aos modelos mais óbvios de culto. Muitas vezes, isso ocorre porque as divindades ctônicas não são consideradas protagonistas nesses sistemas de renascimento do helenismo que floresceu sobretudo no período clássico da Grécia. E aqui entra um ponto importante sobre a fundamentação da Bruxaria Ctônica como vertente:
A Bruxaria Ctônica é uma vertente de bruxaria politeísta helênica ctônica, que se concentra no enraizamento a partir dos costumes, crenças e manifestações culturais do povo helênico. Sendo assim, fundamenta-se em tradições e manifestações folclóricas ctônicas difundidas nos territórios da antiga Grécia, Roma e Itália a respeito das divindades do submundo. A Bruxaria Ctônica é uma vertente de escavadores de mitos e de expressões artísticas, culinárias, orais, arqueológicas, literárias e religiosas do ctonismo, que busca no eixo histórico o seu norteador principal. O foco volta-se às práticas que ocorriam não apenas entre a aristocracia das principais pólis, mas também em regiões diversas, periféricas e rurais, que assimilaram crenças, mitos, e práticas de feitiçaria (pharmakeia) do culto a divindades ctônicas.
Obsidiyana – Criadora do Manifesto da Bruxaria Ctônica
A Bruxaria Ctônica nasce, portanto, do interesse em resgatar, ressignificar e disseminar crenças e práticas tradicionais helênicas associadas ao ctonismo e as manifestações de feitiçaria que operavam muitas das vezes na marginalidade da cultura helênica. Busca focar na dinamicidade, funcionalidade e capacidade de construir uma ponte entre as manifestações religiosas e culturais do passado e as demandas sociais, políticas e coletivas a respeito da morte, do obscuro e daquilo que se revela um tabu para a sociedade.
Este último ponto finca e posiciona a vertente como uma motivação viva de existência; pois, por mais que ao longo dos séculos diversos grupos e covens tenham se dedicado ao culto dos ctônicos, nunca antes nos organizamos como comunidade para reafirmar que esta prática é, também, um exercício de repensar a cultura a respeito da morte, do luto e da sombra.
Sendo assim a Bruxaria Ctônica se estabelece como vertente sustentada pelos seguintes pilares:

A base referencial da Bruxaria Ctônica
Sendo uma vertente fundamentalmente ligada à tradição e ao folclore helênico, a bruxa ctônica baseia-se em registros antigos encontrados em mitos da literatura clássica greco-romana e itálica, trabalhos acadêmicos e pesquisas históricas. Esse olhar de sondagem e curiosidade especulativa move a sua alma; sendo assim, o material de conhecimento base é mais voltado à cultura helênica, seus mitos e expressões de feitiçaria, do que, necessariamente livros de bruxaria.
Isso não significa que obras de bruxaria tradicional e outras linhas não sejam valiosas para uma compreensão abrangente e refinada do termo, mas a transmutação do folclore em Arte necessita, primordialmente, de uma revisão direta dos registros deixados por poetas, filósofos, geógrafos, sacerdotes, devotos e artesãos que referenciaram os ctônicos, assim como as feiticeiras míticas que reverenciavam essas divindades. Algumas obras que podem nortear a bruxa ctônica e auxiliar no mapeamento dessas tradições são:















Obras míticas fundamentais para bruxas ctônicas:






Obras fundamentais de geografia, filosofia, botânica tradicional e folclórica para bruxas ctônicas:









Na Bruxaria Ctônica, as respostas não vêm prontas; elas precisam ser conquistadas por meio de perguntas astutas que fazemos a fim de encontrar uma base sólida e ancestral para as nossas vivências e práticas. A bruxa estabelece o vínculo folclórico e tradicional quando não se contenta com explicações vagas a respeito do “grande mistério”, seguindo um caminho que nos instiga a revolver a terra não só de maneira prática, mas teórica também.
O refinamento, a excelência e a lapidação constante da bruxa ctônica ocorrem no cruzamento entre a raiz folk dos mitos somada à possibilidade de aplicação desses símbolos em nossas práticas de forma histórica, revisada e viável dentro da nossa realidade atual. Isso só é possível com pesquisa, estudo e interesse em se enraizar; afinal, para os helênicos, o poder ctônico diz respeito ao que reside abaixo da terra.

“Bruxas e hereges do novo tempo, que buscam pautar suas práticas no conhecimento e responsabilidade espiritual, serão hoje responsáveis por transformar a cultura da obscuridade espiritual em ações práticas de impacto pessoal e social, que visam uma reeducação a respeito de questões renegadas da espiritualidade: morte, sexualidade, profano, necromancia, a própria feitiçaria das vísceras da terra. A Bruxaria Ctônica é mais do que uma vertente, é um movimento que nos convida a viver a bruxaria como um caminho espiritual de resistência e continuidade dos mitos e saberes pagãos, estando abertos a compreender como as deusas e deuses foram e são incorporados no mundo moderno. O ctonismo está sempre atravessado no folclore grego, portanto as práticas são oriundas de mitos, crenças e tradições que possuem caráter obscuro e voltado a comunicação com o submundo ou divindades ctônicas.
Manifesto da Bruxaria Ctônica
Conclusão
O ctonismo se manifesta na bruxaria desde a formação dos primeiros covens, o que nos permite considerar que estes, de fato, praticavam magia ctônica. No entanto, não necessariamente estes espaços se declaravam como Bruxaria Ctônica, visto que o culto as divindades ctônicas ocorreu e ocorre nas mais variadas vertentes; a bruxaria ctônica distingue-se por sua definição coletiva e social enquanto politeísta helênica ctônica, bem como sua autodeclaração vinculada ao impacto social sobre a morte e a abrangência de culto e olhar ao ctônico: não se limita apenas às divindades ou algumas delas, mas ao ctonismo em si, em uma busca ativa e constante pela cultura material como base referencial para a vivência mágica.
A bruxaria ctônica, portanto, não deve ser equiparada a vivências realizadas em covens e espaços de bruxaria com divindades ctônicas, caso esses locais não se declarem como tal. Isso significa que não é adequado definir grupos e pessoas como “bruxas ctônicas” se elas próprias não o fazem, simplesmente por cultuarem divindades ctônicas dentro de outros sistemas, pois existem varias outras vertentes de bruxaria que cultuam os ctônicos, isso não é exclusivo da Bruxaria Ctônica. Essa vertente não se isola como a única por onde o culto aos ctônicos é possível. Sendo assim, embora o culto a essas divindades esteja presente em diversas vertentes da bruxaria e do politeísmo helênico, a bruxaria ctônica empenha-se em organizar-se como uma vertente que se move rumo ao foco na organização social, coletiva e cultural desse corpo de crenças e costumes associados ao ctonismo, construindo um jornada fundamentada, direcionada, centrada na tradição e focada na perpetuação da história de divindades ctônicas do panteão helênico e daqueles que as cultuavam.
A bruxaria ctônica é uma vertente que tem ganhado forma e sedimentação na atualidade, mas solidificada na historicidade helênica, romana e itálica, buscando vínculo direto com o passado. Dessa forma, aproxima-se mais de uma vertente de bruxaria tradicional do que de acepções neopagãs adquiridas de impressões diretas de outras vertentes já formadas que têm a Wicca como referência e ramo de influência. A busca da bruxa ctônica se dá na investigação do passado como eixo e caminho para encontrar as respostas para a conexão e o culto aos ctônicos. Esse caminho, quando atravessado na bruxaria, encontra base e noção de culto na antropologia e na história a respeito da bruxaria tradicional.
Portanto, a bruxaria ctônica não nasce como um “contrarramo” do helenismo moderno, pois não se baseia diretamente em seus rituais para a formulação de algo novo. Este foco envereda-se na escavação e investigação direta de fontes primárias e secundárias a respeito do culto às divindades ctônicas e à maneira como elas foram incorporadas na transição entre o culto antigo e a inserção em clãs e caminhos da tradição de bruxaria nas regiões de Roma, Grécia e Itália. Este elo com o folk mantém a bruxaria ctônica comprometida com o resgate e a continuidade dos costumes daqueles que cultuavam os ctônicos ou que acreditavam em seu poder e magia, sobretudo aqueles que a praticavam mesmo sendo vistos de formas estigmatizadas pelos antigos. Por mais que algumas dessas práticas tenham sido vistas como sujas, marginais e profanas no passado, a bruxaria ctônica não olha apenas para o que está óbvio e estabelecido pela religiosidade helênica, mas se interessa e sonda o território obscuro e marginal, onde necromantes, feiticeiras e pessoas rotuladas realizavam magia.