Pharmakeia – O sistema operativo da Bruxaria Ctônica (Parte I)
A feitiçaria ctônica é o sistema operativo e mágico da vertente da bruxaria ctônica. Isso significa que a bruxaria ctônica é a via, e a feitiçaria ctônica é a ferramenta que levamos nessa jornada e nessa vida para interagir com as forças que nela estão presentes: divindades ctônicas, daimons, forças da natureza e entidades no geral que fazem parte da cultura helênica.
A feitiçaria ctônica é enraizada no legado mítico das antigas feiticeiras helênicas; que sim, elas fazem parte do imaginário mítico, cultural e ancestral da Grécia Antiga, muito embora costumem afirmar hoje que a bruxaria e a feitiçaria não têm qualquer relação com a cultura helênica. É importante afirmarmos que têm sim e que é ali, no território grego inclusive, que começa a dar forma à imagem da bruxa europeia — aquela figura feminina que se torna bode expiatório na caça às bruxas e na Inquisição. A construção da imagem da bruxa não começa na era medieval, mas sim na Grécia Antiga.
Elas servem-nos de inspiração e modelo de transgressão, poder e capacidade de transpor as expectativas para viver e manifestar a própria natureza selvagem. Seus mitos e histórias permanecem nos encantando e servindo como caminho simbólico de transformação, por meio de reinterpretações que nos possibilitam pensar mais a fundo no que cada uma delas representa em nossa psique.
O sistema da feitiçaria ctônica não é apenas contemplativo; ele é principalmente prático, nos convidando a meter a mão na terra, evocar as divindades ctônicas e trabalhar com elementos para causar efeitos notórios em nossa vida material.
As mudanças são visíveis, tangíveis e apalpadas por nossas mãos profanas. No corpo da feiticeira ctônica e em sua habilidade de praticar essa arte, reside o poder para fazer da experiência de contato com as divindades ctônicas não apenas concepções de pensamento, mas forças vivas, atuantes e presentes em nossa jornada aqui na Terra.
A origem da feitiçaria Ctônica
A palavra feiticeira (pharmakis) surge pela primeira vez em um documento helênico na Odisseia — ou seja, cerca de 800 a.E.C. —, no episódio em que Circe prepara a phármaka (mistura de drogas mágicas) e a serve a Ulisses. Circe é adjetivada pelo epíteto Polyphármakos — “hábil em muitas drogas/remédios”.
Pharmakeia (feitiçaria) deriva de phármakon/ka, que pode significar tanto remédio quanto veneno — uma ambiguidade proposital e poderosa. Os praticantes de pharmakeía eram chamados de pharmakeús (masculino) ou pharmakis/pharmakistra (feminino).
A pharmakeia era uma forma de feitiçaria farmacêutica com a finalidade de causar efeitos notórios na matéria por meio do uso de phármakas (drogas), chamadas de feitiços e poções feitas para diversas finalidades.
Não somente os mortais praticavam a pharmakeia, mas ela também se fazia presente entre os deuses. Um caso popular é quando Hermes apresenta a planta mágica chamada Moly para Ulisses, antes de ele entrar no palácio de Circe. Outro é quando, ao se responsabilizar por cuidar da criança Demofonte, Deméter informa ser conhecedora de poção floral e também conhecer proteções contra qualquer tipo de feitiçaria. Vemos, então, que a pharmakeia não era uma arte difundida apenas entre mortais; e, através das primeiras menções da palavra em documentos gregos, descobrimos que Circe é uma importante figura associada a essa arte e à maneira como ela era inicialmente percebida no território grego.
Circe: a deusa pharmakistra das bruxas ctônicas
Filha de Hélio e da ninfa oceânide Perseis, Circe é a deusa helênica das feiticeiras — aquelas que eram habilidosas na arte da manipulação das plantas, de onde poderiam criar venenos e antídotos para os diversos males.
Dizia-se que o palácio da feiticeira erguia-se entre os bosques escuros do sudeste da Itália, no monte que ficou conhecido como Kirkaion. Lá, ela residia com diversas outras ninfas, que eram também suas iniciadas e aprendizes.
No período tardio, ela passou a ser considerada filha de Hécate e tia de Medeia. Circe é a nossa primeira referência de feiticeira ctônica.
É da boca de Circe que sai o primeiro registro literário de um ritual de necromancia; isto quando a deusa orienta o herói Ulisses a ir até o bosque de Perséfone para falar com a alma do adivinho Tirésias.
Ela espalhou ao redor suas drogas malignas e essências venenosas; e, do Érebo e do Caos, chamou Nox (Noite) e os Deuses da Noite (Di Noctes) e derramou uma prece com longos gritos lamentosos para Hécate. A floresta (maravilha das maravilhas!) se afastou, um gemido veio do chão, os arbustos empalideceram, o gramado salpicado ficou encharcado de gotas de sangue, pedras zurraram e mugiram, cães começaram a latir, cobras negras enxamearam no solo e formas fantasmagóricas de espíritos silenciosos flutuaram pelo ar.
— Ovídio, Metamorfoses, 14.308
Para entendermos o contexto histórico e como a imagem da feiticeira helênica foi construída e transformada ao longo do tempo, até chegarmos à Bruxa Ctônica, precisamos voltar ao passado para entender como a magia era vista na Grécia Antiga, assunto que será abordado na parte II desse artigo.
Assista a versão audiovisual deste conteúdo:
Referências:
OVÍDIO. Metamorfoses.
HOMERO. Odisseia.
SCARBOROUGH, John. Pharmacology and drug therapy in ancient Greece and Rome.
COLLINS, Derek. Magic in the Ancient Greek World